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Arthur da Silva Bernardes

"... E de não sacrificar à vaidade os altos deveres e interesses que então encarnava. Se tivesse, ao contrário, pretendido ostentar valentia, fazendo assim o jogo dos inimigos da ordem e meus insultadores, seria tão criminoso como o generalíssimo que fosse para as trincheiras expor-se ao fogo e ao assalto, com o só intuito de se mostrar valente. Tal é o privilégio do chefe: sobrepor à vaidade e ao amor próprio os ditames da consciência e do dever..."

Todos os adjetivos, usados até hoje para falar do talento de Bernardes, estão aquém de suas qualidades. Desde cedo, revelou determinação e firmeza de caráter. Os ensinamentos hauridos no ambiente austero do vetusto Colégio Caraça influíram; de modo acentuado. Na sua formação moral e religiosa. Assim, ainda que em meio às atribulações, não se esquecia de rezar, todas as noites, o terço, e o fazia no terraço do Catete. Sisudo, desde menino, Bernardes não freqüentava rodas, e, raramente, sorria. Concluiu os cursos preparatórios, em Ouro Preto, onde foi funcionário dos Correios e redator de "O Cisne". Latinista, exímio cultor da língua vernácula, as quais lecionou no Instituto de Ciências e Letras, na Capital Paulista.

Ocupou os mais altos postos no Estado e no País. Administrador esclarecido, possuidor de uma visão abrangente dos principais problemas nacionais, tomava as necessárias providências, para solucioná-los. No seu entender, o imposto de renda, que se implantou suavemente no Brasil, não devia atingir os funcionários mal remunerados, aqueles que percebem de uma só fonte dos cofres públicos. Discordava que os vencimentos e salários, que devem ser considerados como alimento, ficassem sujeito ao imposto de renda. A menos que tivessem outros rendimentos, propriedades, polpudos depósitos bancários, estes, sim, deviam ser taxados em base mais elevada, em benefício da coletividade. Justo seria, se fosse proporcional à capacidade do contribuinte. Bernardes não se esqueceu do problema da criança abandonada e da menoridade delinqüente. Em seu governo adotou medidas inaugurando escolas especiais, separando os menores por sexo, idade, vícios e crimes. Em sua gestão foram criados vários hospitais de crianças e escolas de assistência social. Partiu também do Presidente Bernardes, que conhecia de perto o sofrimento de seu semelhante, a idéia da reforma do sistema presidiário no Brasil. Figura singular no cenário politico-administrativo do nosso Estado. Enérgico, cheio de idéias. Sabia expor com precisão os seus pontos de vista. Num discurso pronunciado no Palácio da Liberdade, afirmou: "Cumpre a todo transe fazer do brasileiro um homem digno de sua grande Pátria, capaz de integrar no seu sentimento, de fundir no seu passado e de assimilar na sua raça a volumosa corrente estrangeira, que vem chegando, em vez de ser por ela absorvido e eliminado como um servo da gleba em que nasceu..."

Em 5 de janeiro de 1918, lançou-se um manifesto, contendo o programa de Bernardes, então candidato ao governo do Estado. O importante documento político foi assinado, em Viçosa. Nele, podia-se aquilatar os propósitos do estadista montanhês, que soube dirigir os destinos de Minas Gerais. E, de tal modo o fez, constituindo seus atos esperança para o povo, que o levou, pelos sufrágios unânimes, à Presidência da República.

Em 1926, compareceu à inauguração da Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa, obra de seu governo estadual, ocasião em que disse: ....Daqui parti para os cargos que me tem sido confiados na legislatura e na administração. Aqui me vieram buscar para o governo de Minas, donde teria que sair para o governo da República. Todas essas posições eu as tenho recebido com ufania, mas sem vaidade, como imposições ao meu patriotismo e meio de ser útil e servir a nossa pátria. Quem lhes observa ou considera apenas o aspecto exterior, supõe de gozo os postos de governo, quando são, na realidade, do maior sacrifício... A um homem de consciência não pode ser oferecida provação maior do que a magistratura suprema. Não a pode exercer convenientemente nem deve aceitá-la, quem só se sinta atraído pelas honrarias. Estas são bem poucas causas em confronto com as fadigas sem conta que a Presidência impõe, as apreensões de toda a sorte que ai salteiam o homem de coração e de caráter, o patriota que tenha a preocupação de bem cumprir o seu dever, servindo eficazmente ao seu País... Não pode caber a um cidadão honra maior, mas, igualmente a nenhum se pode impor maior e mais pesada tarefa, sacrifício maior, só suportável em bem da Nação - a Nação a que tudo devemos: os nossos melhores esforços, a nossa dedicação de todos os dias, todo o nosso trabalho e fortuna, e a nossa própria vida..."

Filho de Antônio da Silva Bernardes, português de Castanheira de Pêra, e de Maria Aniceta Bernardes. Do pai, herdara a inteligência, a severidade e a tenacidade e de sua mãe, o espírito ponderado. Era o 4.º de uma família de nove irmãos. São eles: Carolina (Cota); Antônio (Totone); Alfredo; Isolina (Isola); Ana (Ninica); Angelina; Olívia e Olegário, ex-prefeito de Teresópolis e ex-Ministro do Tribunal de Contas da União. Nasceu em Viçosa, a 08 de agosto de 1875. Casou-se com Clélia Vaz de Mello, a 15 de julho de 1903, sua companheira inseparável por mais de sessenta anos. São seus filhos: Clélia Bernardes Alves de Souza, casada com o Embaixador Alves de Souza; Artur Bernardes Filho, casado com Sofia de Azeredo Bernardes; Maria da Conceição Bernardes Machado, casada com José Domingos Machado; Rita Bernardes Freitas Castro, casada com Dr. Cristiano Freitas Castro; Geraldo da Silva Bernardes, solteiro; Silvia, Dhália e Maria, que faleceram recém-nascidas; e Maria de Pompéia Bernardes Flouf, casada com Roberto Flouf. Bernardes possuía hábitos domésticos, passando os momentos de lazer em sua biblioteca absorvido na leitura da Bíblia, livro de sua predileção, ou jogando bilhar.

Faleceu no dia 23 de março de 1955, às 13 horas, vítima de enfarto do miocárdio, em sua residência à Rua Valparaiso., Rio de Janeiro. Morreu em plena luta. Era um nacionalista a defender trusts estrangeiros, preservando nossas riquezas. Os seus 80 anos não lhe haviam enfraquecido a energia cívica, sempre posta à prova no serviço de Minas e do Brasil. Além das providências oficiais, o Governador Juscelino Kubitschek exprimiu à família enlutada, o desejo de que os funerais fossem custeados pelo governo de Minas. O oferecimento não foi aceito em virtude de a União, numa iniciativa do Presidente Café Filho, ter-se incumbido de prestar as homenagens póstumas devidas ao estadista montanhês.

 


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