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| César Sant'Anna e Castro |
Nasceu em Viçosa, MG, em 12 de janeiro de 1887. Músico e compositor, deixou espalhado pela região grande número de modinhas, dobrados e músicas carnavalescas, verdadeiras obras-primas em beleza e qualidade: "No carnaval, agora é moda, Unhas pintadas, saias de roda..." Casou-se com Maria Raimunda SantAnna, dia 26 de abril de 1912, na Igreja de Santa Rita de Cássia, em Viçosa, MG. São seus filhos, José SantAnna de Castro Sobrinho (Zizito), César SantAnna Filho (Cesinha); Augusta Sant'Anna da Silva (Neguinha), Maria Aparecida Sant`Anna Paiva (Cidinha), Joaquim de Sant'Anna e Castro (Nonô), Maria das Vitórias Sant`Anna Stalla (Vitória), José do Espírito Santo Sant'Anna (Zé Bóia), Dulce Maria Sant'Anna Tiago de Souza (Dulcinha) e Maria Imaculada Sant`Anna Salgado (Maculadinha). Netos, 52; bisnetos, 82; e trinetos, três. Trabalhou como alfaiate, em Viçosa, e também na torrefação de café, mas seu nome prende-se realmente à grande arte da música. Foi, por muitos anos, a alma incentivadora, da Lira Santa Rita, banda criada por seu pai, José Jacinto e que, até hoje, faz a glória desta cidade. Dele, disse o grande L. Couto e Pinho (José Pinto Coelho), em belíssima crônica, publicada em A Cidade: "Ave, César! Toda terra tem sua história mais ou menos poética, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo coração tem suas saudades. A terra que mais nos encanta e seduz é aquela em que nos surpreendem os primeiros deslumbramentos da mocidade. Pode-se dizer, talvez, o mesmo das criaturas que conhecemos. E eu tinha precisamente vinte e três anos quando conheci César SantAnna. Volvidos, embora, oito lustros na dobadoura do tempo, lembro-me bem do dia em que um amigo, há muito desaparecido, m'o apresentara e trazia a incumbência de nos convidar a assistir à celebração de um casamento, que terminaria com um baile, numa fazenda próxima. Viajamos a cavalo. O dia era uma glória de ouro, de azul e de verde, lustrando a porcelana diáfana do céu, polindo os leques viridentes das palmeiras. Tudo convidava voluptuosamente para a delicia de uma festa. Já as rosas crepusculares empalideciam e o sol abrandava o fulgor de suas frechas de ouro e púrpura, quando apeamos no terreiro da fazenda. Estendido em um vale, o velho e amplo casarão espreguiçava-se entre dois outeiros verdejantes, numa atmosfera purissíma e leve de resinas e flores silvestres. De instante a instante, estacava, ao pé da porteira, um grupo de cavaleiros, vindos das fazendas vizinhas, para a festa. A noite vem sem tardança e, com a aproximação do baile, uma alegria contagiante apoderou-se de todos os semblantes. Era a alegria dos que não temem a vida, porque a vida lhes é verde, toda em flores. Era a mocidade, de riso na boca, de coração aberto, que enchia os salões. Naquele comenos, o meu leal companheiro de excursão deu larga à sua jovialidade impetuosa. Enquanto garbosos pares dançavam no salão principal, ele, em outra sala, lançou mão das áureas cordas de um pinho, dedilhando-as com graça e fogo. E foi assim até alta madrugada. Eu olhava para os seus olhos sem tristezas, para o seu sorriso sem dúvidas, para os seus gestos sem reticências - e pensava. Pensava naquele artista extraordinário, que parecia captar, com sensibilidade agudíssima, o que andava no ar, em ondas órficas, e o conduzia ao seio dos sonhos miraculosos... Viçosa, terra de boêmios afamados, assistiu, muitas vezes, no frio das altas madrugadas, aos devaneios da alma lírica de César SantAnna, nas suas serenatas chorosas, em que se ouviam, aos soluços do seu violão, modinhas sentimentais, tão peculiares da Euterpe, ele e, antes de tudo, o protótipo da modéstia. Inteligente, delicado, alegre e espirituoso, tem nítida compreensão do lugar onde param o respeito e a gentileza e onde começa a bajulação. Suas composições musicais são verdadeiras obras-primas, espalhadas por toda a parte e perdidas nos arquivos. A música, como as palavras e a natureza, vale, para ele, como imagens que reduzem as sugestões de uma sabedoria, da qual não foge nunca o instinto. Sua maneira de apreciar a vida e a arte é tão intensamente pessoal, tão sua, que poucos a ele se igualam. Sem embargo de ter bebido as escornalhas do século passado, que ele sempre revive na voluptuosidade platônica do seu romantismo, penetrou, por inteiro, no senso da hora atual. E dentro da sua modéstia, compõe, qual anônimo operário ilustrador, os sambas carnavalescos, ensaia-os com os seus discípulos e depois deixa-os ao léo. A vida de César SantAnna acaba de ser ilustrada por uma festa rara, que somente: merecem os eleitos de Deus. Cercado, como um patriarca homérico, por uma descendência numerosa como poucas, e, em meio a dedicação e ao apreço dos seus inúmeros amigos, viu transcorrer, num dia liricamente luminoso do último abril, a data comemorativa de suas bodas de ouro matrimoniais. À noitinha, fui, como não poderia deixar de ir, vitoriá-lo pela felicidade de tão glorioso dia. Sólido como um roble, sorridente como sempre, encontrei-o ao lado de sua fiel companheira de lutas e de sonhos, com quem fundara uma família digna das tradições de Viçosa. E ficamos juntos durante muito tempo, falando de tudo, do passado, isto é, de nós dois. E um florão de recordações perdidas veio, revivendo, clarear a minha imaginação, na delícia de estar um pouco, de novo, naquele tempo que ficou lá atrás... Era bom? Era mau? Pouco importa. Basta que seja passado para ser desejável... E houve uma nova mocidade nos meus olhos. E houve uma festa dupla em todo o meu espírito ... Muita coisa mudou em Viçosa, no decorrer desses cinqüenta anos. César SantAnna não mudou. Traja-se com o mesmo apuro de outrora, não tem cabelos brancos, compõe músicas admiráveis, dedilha o violão, canta, continua no seu passo acelerado, subindo escada nas pontas dos pés. Sabe arrancar da sua época o que esta tem de original e humano. É o homem mais "moço" que eu até hoje conheço. Moço de verdade, isto é, de alma. Firme, rija e luminosa, a sua mocidade semelha-se a um diamante engastado na sua vida: os anos, que sobre ele se empilham como placas de vidro, tomam-se transparentes a sua luz violenta e múltipla. Que homem, por muito solicitado pelas misérias humanas, por muito afeito à contemplação de podridões morais, pode conservar, na tarde da vida, a doçura da visão matinal da mocidade? Entretanto, há os que persistem, que teimam, que se obstinam entre as amargas encruzilhadas da vida, em acreditar que a humanidade tem inesgotáveis reservas de bondade, a despeito das decepções que desarticulam os ideais mais belos e comprometem a altura luminosa das mais nobres finalidades. Essa ventura Deus o concedeu prodigamente à verde velhice do meu velho e sempre novo amigo César SantAnna". |
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